segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Meu bem,


"Meu bem querer,
é segredo, é sagrado,
está sacramentado em meu coração"

Ainda que as estradas não tenham se cruzado, eu sei que elas se olharam. E quero guardar seu olhar como uma luz, no meio do meu caos comumente escuro. Queria poder te dizer que te sonhar me fez bem. Que seu sorriso foi um desconcerto bonito pro meu coração. Que eu não sabia parar de procurar nos seus olhos uma certa parte de mim, e que eu quis muito mergulhar, sem volta, nesse seu céu claro, em nascer do sol. Seu nome era como um doce preferido, que toda noite eu ansiava por provar na minha imaginação infantil. Não quero te guardar como mágoa, ou como um sabor que não senti. Só quero lembrar da leveza de me sentir apaixonada, e de te ser grata, meu bem, pelo bem que você não me fez, mas me fez querer sentir.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Porque hoje é "díspares", como diriam os "sábios".


Bufo.

E quem diria?

Quedou-se.

Caíram ao chão as promessas de eternidade, e os sorrisos do comum. Caíram os surdos apelos de felicidade e o contentamento juvenil. Rastejam ao chão os pra sempre proclamados, e as certezas decoradas. Não ecoa nos corredores nada além do que não é..

Sinto saudades..porque o ontem é sempre mais claro e verde (e bonito, e simples, e inalcançável)  que o amanhã. E o hoje é só os dois brigando entre si.

Por mais vaga que seja a queda, por mais lento que seja seu tombo...o cair sempre desperta. E a dor é sempre desespero, porque ninguém lembra como é não senti-la quando de modo tão devastador ela toma todas as ranhuras de espaço.
E as linhas não precisam ter sentido para tomar o peito em vil descrença..
Porque a queda é um sorriso irônico, olhando para cima, pacientemente à espera...se movendo, languidamente, rastejando o encontro e aproximando a respiração, lenta e forte..


É nesse instante sereno, porque triste, que levantam-se as mãos e prestam-se preces a felicidade.

vamos ver se dessa vez eu acerto de novo: "a tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos..."

domingo, 18 de agosto de 2013

Areia nos bolsos




"Se puderes olhar, vê.
Se puderes ver,
Repara."
(José Saramago)



Quando uma certa luz ensolarada, calorosa, macia e leve invade aquele ser enrijecido pelo cinza do asfalto....Ah....
(...)


E ainda resta a areia nos bolsos!!!



      Acordar com o frio do vento uivando, parecendo canção que flui o dia inteiro pra dentro da gente. Andar com o sol caminhando de lentinho, que é para o tempo parecer não passar, escorregando devagar por essa vida leve de quem sente o bronze queimando a pele. Sabe como é voar?? Voar pela areia da praia, nas duas rodas de uma bicicleta (e tombar no céu, desvairada!)!! Nadar só pra ver o sorriso do mar quando marca a gente com aquele sal, que depois ninguém sabe mais se é pele ou se é mar. Emaranhar os cabelos no anoitecer silencioso...como lençóis negros se estirando aos nossos olhos... Dançar ao leve sabor dos coqueiros... Tão lento...Como se, por aquele instante, todo o mundo girasse tão terno quanto aquele movimento. Ouvir o escuro se desmanchando em pequenas gotas de luz (1...2...3...4...Milhares!!!) e desdobrar-se em motivos para aquele espanto de felicidade... Tão pleno quanto fugaz...Parece até uma música leve ecoando baixinho dentro do peito, com uma saudade de quem se é...

-já sente o gostinho do mar?...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Cotidiano- máscara de sonhos desfalecidos

 
   Sempre tentei achar qualquer tipo de motivação nos dias que me passam...Uma flor a beira do caminho, a chuva que me é tão amada, um rastro de compaixão...Qualquer leveza que nos absorva desse aspecto comum do passar das horas...A existência como algum pleno do simples.
   E por mais que alguns dias sejam repletos de sensibilidades errantes, assim como um caminho de humor ou  algum tipo de alienação egoísta; eu sinto as engrenagens enferrujadas permeando os meus dias...As horas...seguidoras mudas do previsível: cotidiano.
   Encher-se de metas ou desafios simultâneos, esquivar-se em si mesmo e nas próprias justificativas vazias da infelicidade. Não sei ao certo o que procurar nesses escombros do hoje...E não há anestesia para a realidade.
  Somos como fantoches das nossas próprias ilusões de sentido! Somos vazios. Reflexões incompletas de um abismo existencial...Alienados sobre a própria alienação. Almas que vagam em desencontros afetivos preenchedores de um torpor qualquer, de uma necessidade de vida!
  Ando tão sedenta de algo que me faça buscar incessantemente um cerne repleto de significado...Algo que me mova verdadeiramente a mais do que a busca de um tipo de subjetividade...Algo tão sublime como a necessidade de voar! De entregar-se a uma cachoeira perdida no tempo, de águas calmas e azuladas...
  Mas tudo não passam de perguntas...novas e novas formas de suportar o fardo do trivial...Daquilo que corrompe lentamente, do que consome pilares até a decomposição...Desse ciclo pueril  que encobre a beleza já não suficiente...

"Meu amor, meu amor, irmos cara o maior; Miña amada, meu ben, imos polas terras do alén..."


sábado, 24 de novembro de 2012

Aos Tolos,

  
  Quando as pessoas fatigarem teu peito de sentir...e veres então que nada te cerca, a não ser esse teu amor exagerado...Que caia a mais pura lágrima...a mais doce subversão...
  Quando a dor do amor não encontrar consolo no teu pranto, então tua voz calará os teus olhos baixos, e tu pensarás em jamais amar de novo qualquer criatura a não ser a si mesmo. Teu peito ofegante pela cólera, tomado por mais um desses teus sentires, explodirá em mil rosas...Tão raras e puras, derramando orvalho, como lágrimas pela solidão do não cultivado...
  E então estarás sozinho. Pronto para recomeçar a existência sem afeto qualquer...Teus passos não deixarão rastros e teu olhar não será entregue...Tu serás semente de si.
  Mas quando contemplares a primeira flor a beira do caminho, entre pedras sufocada, então tu compreenderás...Que a tua existência, doída de tanto sentir, é como uma flor a beira da estrada: esmagada pelas pedras, mas ainda sim, banhada de encanto e leveza capazes de fazer teu peito suspirar novamente...
-É quando vejo pequenos brotos despontando de dentro de ti...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

  

 Saudade é como um copo meio vazio (ou meio cheio?), porque ela só existe se houver algum tipo de presença. É a contradição em si mesma: da presença que desvelou a ausência; da alegria que cominou na dor.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fugere Urbem

 
     Navegando em um barco, com os remos sobre o asfalto, paro sobre o crepitar de um sinal fechado. A encruzilhada na espreita, olhos postos sobre mim...E paro para olhar a Lua, um só instante, no céu cheio de luzes de postes.
     Sigo reto, com medo das esquinas: é nas esquinas das ruas que toco o limiar entre o sim ou o não. Remo mais um pouco, olhos abatidos, olhos para os lados...Tantos barcos sem remo, tantos pescadores sem barco, tantos remos quebrados, tantos olhos cansados...Como se cada alma caminhasse para o vazio...Como se tudo pertencesse a um buraco cinza, de concreto, onde não há dor...ou refúgio.
   Meus braços fraquejam, teimam em tremer vagarosamente...Como se até o cansaço soasse mórbido. Como se cada força, cada luz que não fosse artificial, fosse sugada para o buraco de concreto. Como cadáveres vivos, caminhamos todos sempre na mesma direção, sem olhar para a esquina, sem parar: olhos fixos, corpo rígido, sorrisos falsos para os lados. Já não há mais máscaras: é carne nua que sorri como robô.   
   O sinal desfigura-se em verde fosco. Barcos outros movem-se, movem-se, movem-se...Como  se buscassem a si mesmos. Meus olhos tremem, por um instante, ao olhar para a esquina...E sinto um leve toque no rosto, acariciando a pele sem cor, fechando os olhos que há muito não fechavam, farfalhando umidade sobre meus lábios...era uma brisa.
   Então, por desespero ou necessidade, não se sabe se por um impulso qualquer, ou por razão desconhecida, meu corpo moveu-se, vagarosamente, dobrando a rua. Olhei para os outros, que permaneciam em frente. Quis voltar mas não pude; meus músculos pareciam quebrar com o esforço, meu corpo queria descansar mas não sabia. Sozinha em mais uma rua, olhei para a Lua. E vi que já não haviam luzes de postes.
     Senti algo bater: Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum...O QUE É? QUEM ESTÁ AI? Tum-tum, tum-tum, tum-tum, tum-tum...SAIA, SAIA! DEIXE-ME EM PAZ! Tum-tum, tum-tum, tum-tum...Remei desesperadamente, mas o barulho me perseguia...Senti minhas mãos sufocando os remos, meu barco riscando o asfalto, meu suor escorrendo...Suor? O que era isso? Minha boca se contorcia em algo disforme, o que seria? E que barulho? E que esquina?Onde estão os postes? Ou estou e..
      Foi então que meu barco calou, suavemente. Meus braços já não precisavam mais remar. Meu corpo foi jogado para trás e entendi que aquilo era descansar: quando abri os olhos e vi o céu cheio de pontos de luz olhando para mim; e a Lua, bem no meio, branca e singela. Foi naquele instante que compreendi que estava viva..que meu coração ainda batia dentro do peito..Foi quando um sorriso (ah, um sorriso!) se desenhou em linhas completas no rosto cercado de carícias do vento. Foi quando meus ouvidos puderam ouvir um balanço crescente que envolvia meu barco, batendo na madeira lentamente...Foi quando pude levantar meu olhar  e avistar o infinito azul em que agora eu navegava...
     O Mar...!
   

"Cogito, ergo sum"