terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Mares Doces


"Falar muito e dizer pouco.
-Uma palavra é uma coisa dura só sentimento pode libertar-"

E se os pássaros dentro de mim não gritarem, não os condene. E sim os aceite. Porque gritos são expressões do áspero exagero...Eu não preciso gritar nada, só quero que você sinta. Sinta o frescor dos suspiros, o toque e a  completude de um olhar...Tão leves e majestosos como um grito jamais será.
E não te queixes dos nossos sussurros internos...
Sinta. 
E quando chegares ao sentido vasto, ao âmago da intensidade sem revestimentos de onisciência ou imprecisão...Quando enfim alcançares os escombros por debaixo dessa carcaça de dor, e vires o trespassar de pequenas luzes lunares alcançando sua vista cansada e condicionada ao escuro...
Então cale.
Cale porque palavras são meros símbolos da impotência humana. Tentativas repetitivas de consumir o inexpressivo. E eu quero que sejamos livres dessa prisão de sentidos inexistentes, formulados repetidas e repetidas vezes pelos vazios da descrição concreta. Eu quero a poesia sem sentido.
Renda-se a doce leveza de um mar salgado.
As incógnitas imperfeitas do sentir que se encaixam na completude de dois.
Mata tua sede com o olhar.

"Um jeito, um gesto, um golpe de ternura
E a vida volta logo pro lugar..."

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Devaneios de Melancolia


Sabe que eu queria ouvir tudo que se passa pelo seu olhar naquele momento? E queria ter certeza que é tudo verdade; daquelas verdades que não acabam...E eu acho que é por isso que você não fala, porque no fundo você tem medo também.
Então eu abro o guarda chuva, mesmo fazendo sol, e sorrio para o tempo, pedindo clemência.

Ele me olha, gentilmente irônico, e me fala que flores secas jamais renascem...é necessário plantar um novo jardim.

Então pego adubo e girassóis, dançando sobre o frescor do presente. E canto baixinho uma canção antiga que ainda faz o peito palpitar feito passarinho aprendendo a voar. O vento vem beijar-me -atrevido!- e torno a gargalhar com o suspirar das pétalas.

Agora tempo, olho baixinho como quem quer pedir muito, não mande tempestades sobre o jardim que já floresce...E cruzo as mãos, como por medo ou timidez; -não afogue brotos, não sufoque a glória do nascer!!

E ele, com ar sério, diz que flores secas jamais renascem...

Então reluto, ainda chorosa, -e quem as secaria se não tu??
e ele diz, olhando como quem fala para quem muito pouco conhece: não há quem sufoque, com secas ou dilúvios, mais do que tua própria alma...Eu sou senhor do feito e do não feito. Consequência do concreto. Zela do teu jardim...e eu te digo: não será tarefa fácil. E quando o concreto não possuir mais abstrato eu exalarei o perfume da renovação.

E então eu ri, com esperança calada. Depois guardei o riso para desfrutar com meu jardim a minha prosa com o tempo.



































ps: sabe que eu sempre sonhei ter um jardim secreto?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Bilhete de fim


E se a vida te parecer cíclica
Em redemoinhos de erros mesmos
Canta baixinho essa esperança pouca
E prende no peito esse choro vão...
Guarda-o para quando chegares ao teu leito.
E quando chegares, derrama-te lentamente
Pensando que o futuro te cerca
Sobre prantos outros, prantos mesmos.
E que o tempo corre. Corre. Corre. Corre. Corre.
E eu te direi: levanta teus olhos.
E tu sorrirás pouquinho.
E eu te indagarei: Sentes o hoje?
E tu dirás: Sinto. E sinto o medo de amanhã.
E eu sorrirei pouquinho.
Fecha as janelas,
Pões, com pesar, tua mão sobre o peito,
E espera o fim.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os passos te pertencem...


E dizem que a vida é mero fantoche do tempo,
-Pobres tolos...
e pobre tempo, o único que assumiu a culpa do mundo pela sua própria imaterialidade.
Dizem que em um espetáculo a marcação dos passos é essencial,
mas no fim, são os atores quem emocionam (ou não).

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

  
  O céu está cheio de ninhos. Pássaros perdidos, que navegam errantes por entre nuvens agridoces. Vidas que rastejam, presas ao chão, observam a vida acima de suas cabeças. E as amam.
  Tolo céu, ri pre-gui-ço-sa-men-te. Tiras de madeira barram um caminho qualquer... Enquanto observo que, abaixo do céu, estás tu ( tão perto).
  E rio, como louca, boba de amor. E amo, exageradamente, tudo que a ti toca. E amo, exageradamente, tudo que de ti emana. E amo, exageradamente, a ignorância ingênua da infância. E não durmo (acelerada).
  E quando acordo, já não mais te vejo. Só sinto a poeira do tempo que preenche minha alma, que nem mesmo o sopro do cotidiano -distante- conseguiu apagar.
  E vivo, perdida no espaço vil da saudade. E me encontro, nas lembranças bucólicas de um tempo fugaz....Esbarro na existência, cega que estou, e torno a amar-te mais e mais.
  E ouço as badaladas do tempo, que soaram durante tantas noites em meus ouvidos cansados... Tic...Tac...Tic...Tac...
  E quando hoje olho no espelho, já não me acho. Meus cacos caídos, nesses labirintos de efemeridade, não mais me pertencem.
  E choro.
  Meu amor foi mistério contente. Pássaro com cheiro de mar, que minha alma zelou durante tanto tempo.   
 -E nos guardo, sobre uma redoma de vidro, intactos.
   Mortos.

sábado, 6 de agosto de 2011

Nossa amizade é como um canteiro...


 
  Duas flores de aparente alegria e mortal solidão encontraram-se no canteiro, a balançar silenciosamente com o vento da existência. Os sóis as alegravam, acalentavam como chuva fina de calor afeto. E quando fitaram a mesma borboleta, de asas azul escuro a semelhança da noite, conheceram-se.
   Não se dependiam. Não estavam vitalmente destinadas. Eram irmãs de alma. Mas não se pareciam. Uma possuía alva face, de tenra expressão, com pétalas brancas, leves como seu aparente espírito, inundado de misteriosa meiguice. Outra, de pétalas azuladas, inspirava reflexos de risos alaranjados, iluminados por um exagero qualquer particular.
   Encontraram-se. Riram, riram, riram. Viram-se como espelho quebrado, que mesmo disforme mantêm sua essência de tão somente refletir. Bebiam da mesma água jogada sobre o canteiro, sorriam os mesmos dias todos os sabores cotidianos, e cresceram; cresceram suas pétalas, suas folhas, e suas almas.
   Encontraram-se. Choraram, choraram. E quando o orvalho teimava em não secar com os reflexos solares, elas mesmas eram sol. Uma da outra. E se mesmo assim, suas pétalas insistissem em chorar, lhes eram Lua. Uma da outra.
   Eram irmãs de alma. Possuíam em seus cílios lilás qualquer pedaço de si própria, mas que também pertencia a outra. Não haveriam mais disfarces, incompletudes ou mistérios. Somente luz clara, fosse branca ou azul, mediante o (muitas vezes) fardo da existência.
   Olharam para o céu e viram o mundo. Pois brotos já não eram, e sim flores, branca e azul, a despontar eternamente....
   - Na eternidade da juventude.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

- Nosso suor sagrado...É bem mais belo que esse sangue amargo!



  Desvela-se com ranhuras pulsantes, ao longo do punhal cravado, agonizante, que sangra e sangra, velado de ódio.
   Sangue transborda por todas as extremidades côncavas, como cadáveres de guerra espalhados, inertes. Sugando a vida pela decomposição.
   E cicatrizes se espalham, mas não contendo a ferida cruciante; esperando somente a morte, para atenuar a dor.
   Então desfaço-me, consumida e entregue ao torpor da inexistência. Por que de que me vale viver a carregar o fardo da dor?
   E assim preparo seu túmulo, enfaixando-o com espinhos, enterro-o ainda pulsante. Recubro-o de pedras e pedras, para que a frieza e dureza dessas penetre na tua essência.
   E agora rezo. Rezo para que tua morte me faça feliz. Rezo para que te tornes tão gélido e pérfido quanto desejo. Rezo e choro pelo último instante, pela tua morte infeliz.
   Jogo aquela flor seca pelo tempo de traição e amargura sobre teu jazigo de pedra, teu novo lar. E me permito chorar uma vez mais,
   - Adeus, coração.

"Cogito, ergo sum"